O exterior é “melhor”

Eu moro na Áustria há cinco anos e meio. Me mudei pra cá por amor e com muita vontade de fazer dar certo. Queria morar num lugar melhor. Foi bem difícil no começo, mas com o passar dos anos eu consegui ter um emprego, amigos e uma vida boa. Até que as coisas mudaram.
Hoje: me separei do meu parceiro austríaco (continuamos amigos e temos certeza que foi a decisão certa), pedi demissão da empresa onde trabalhei nos últimos 4 anos (também continuamos com boas relações, também tenho certeza que foi a escolha certa) e estou planejando meus próximos passos.

Muitas coisas são incertas na minha vida nesse momento, mas uma certeza eu tenho: não quero mais morar aqui. Foi uma decisão muito difícil, mas também tenho certeza que estar aqui – algo que antes fazia tanto sentido pra mim – agora não faz mais.

E aí vem a parte interessante: quando converso com pessoas de qualquer nacionalidade sobre minha história, todos perguntam: “Ah, então você vai voltar pro Brasil pra ficar perto da sua família?”. Parece ser o próximo passo óbvio. Mas quando converso com brasileiros, quase sempre ouço: “Ah não vem pra cá não! Aqui tá horrível, todo mundo tá indo embora e você vai voltar? Fica aí que é muito melhor.”

Queria falar sobre o conceito de “melhor”. Melhor em que sentido? Melhor pra quem? Melhor segundo quais parâmetros? Eu moro em Viena, uma cidade que é considerada primeiro lugar em qualidade de vida do mundo por 10 anos consecutivos. Também é considerada por expats uma das cidades onde as pessoas são menos amigáveis e onde é mais difícil viver sendo estrangeiro.
E porque? Só posso falar pela minha experiência, mas como vivo aqui há mais de 5 anos acho que sei um pouco do que estou falando. Vou enumerar alguns dos fatores:

  1. A língua.
    Vamos ser sinceros, alemão não é fácil! Hoje em dia eu falo fluentemente, mas penei muito pra aprender. Pra piorar aqui eles têm os dialetos – então o que você aprende nos cursos de alemão não é o mesmo do que você ouve nas ruas. Os dialetos são bem diferentes e as vezes nem eles se entendem. Muitas vezes eles até escrevem em dialeto! O grupo de Whatsapp da família do meu ex era o terror pra mim, eu demorei uns 2 anos pra conseguir entender o que no dialeto significava o que em alemão etc.
  2. O frio.
    O verão é maravilhoso, a primavera e o outono são lindos, mas vamos combinar que o inverno é f*da. Fica frio de outubro até abril, mais ou menos. Com o passar dos anos até me acostumei com as temperaturas, pra mim o pior mesmo é a escuridão. Acho super difícil levantar de manhã, você chega no trabalho e tá escuro, você sai e tá escuro de novo. Parece que você perdeu o dia. E também tem o fato de que as pessoas não saem. Todo mundo quer ficar em casa, dá muita preguiça de sair (vestir aquele monte de roupa, encarar o frio na rua). Então as pessoas ficam mais isoladas, muitas vezes me sinto muito sozinha nos meses frios.
  3. O custo de vida.
    O euro está nesse momento R$4,75. Considere que um café com leite aqui em Viena custa quase 4 euros, e faça os cálculos. Esse fator é muito pesado, especialmente no começo, quando você ainda não tem um trabalho estável, não recebe em euros. E já que estamos falando nisso…
  4. O começo.
    Em geral todo começo é muito difícil, e acredite, o começo pra um estrangeiro é mais difícil ainda. Você não entende a língua, a cultura, os gestos, ainda não tem amigos, não sabe o que é o que no supermercado, muitas vezes não tem um emprego. É difícil, é sofrido, você se sente só e pensa mil vezes em desistir. Com o tempo melhora, mas essa fase é inevitável.
  5. O choque cultural.
    Quando as pessoas me perguntam o que aqui é diferente do Brasil, eu respondo: tudo. Eu vivo num país de cultura germânica e muitos dos estereótipos têm fundamentos. É claro que existem exceções, mas isso pesa demais. Eu, por exemplo, sou uma pessoa super estruturada e organizada no meu jeito de trabalhar. Mas aqui já fui chamada de “caótica” por colegas de trabalho. Realmente, em comparação com minha colega alemã eu sou bem diferente. Mas isso não quer dizer que sou caótica, apenas que temos jeitos diferentes de lidar com certas coisas. E isso puxa outro tópico:
  6. A xenofobia.
    É triste, mas é real. Eu já sofri bastante preconceito aqui e tive muitas desvantagens, especialmente no trabalho, ligadas à minha nacionalidade. Tenho sorte porque aqui em geral brasileiro é visto como divertido, “exótico” e interessante (em outros lugares brasileiros são mal-vistos, aqui outras nacionalidades também são). Como tenho a pele clara, as pessoas não percebem imediatamente que não sou daqui e isso também ajuda*. Mas mesmo assim, é muito pesado.
  7. O mau humor dos locais.
    É verdade gente, as pessoas em Viena são conhecidas pelo mau humor, eles até têm orgulho dessa fama. Eles amam reclamar, reclamam muito mesmo. E é muito difícil se manter positiva quando o seu ambiente exala pessimismo. Uma vez recebi visitas de brasileiros e um deles me perguntou se os salários aqui eram muito ruins, pra justificar o mau humor generalizado.
  8. As amizades.
    Depois de muitos anos eu já tenho amigos locais – inclusive encontrei algumas exceções no nível rabugice 🙌. Mas tive muitas amigas brasileiras que moraram aqui meses, anos e nunca conseguiram fazer amizades com austríacos. É fato que eles são muito mais reservados e nada espontâneos. A maioria das vezes quando mando mensagens pra amigos querendo sair, eles só vão ter tempo semana que vem, ou na outra. Combinar e sair no mesmo dia é algo que não acontece.

Então repito: melhor? Depende muito dos seus parâmetros. É claro que o transporte público é maravilhoso e a água da torneira é potável, além do melhor de todos os fatores — a segurança.
Mas pra cada ponto positivo tem um negativo e colocar na balança e decidir se vale a pena ou não é um processo muito pessoal. Pra mim, valeu por cinco anos e meio. Agora não vale mais. Nada na vida é permanente e estamos constantemente mudando e nos reinventado.

Mas pra cada ponto positivo existe um negativo e colocar na balança e decidir se vale a pena ou não é um processo muito pessoal.

Decidir mudar de país não é como decidir mudar a marca do iogurte que você come. É algo que requer muitas ponderações e reflexões. E enquanto muitos acreditam que “tudo no exterior é melhor”, se você nunca saiu do seu país, você não sabe quão difícil viver fora realmente é. Não sabe o que a outra pessoa passou/está passando. Vamos desmistificar esse conceito de “melhor”.

Pra fechar queria falar sobre ficar dando opiniões tão impensadas para decisões realmente importantes na vida dos outros. Queria pedir pra termos um pouco mais de cuidado, empatia e carinho. Afinal, você não sabe que fatores estão pesando na balança do outro.

Essa sou eu morrendo de frio na frente da Ópera de Viena. Achei simbólico.
Essa sou eu morrendo de frio na frente da Ópera de Viena. Achei simbólico 🙂

* Quero esclarecer que em um país onde a maioria das pessoas tem a pele clara, poder se “camuflar” com mais facilidade é um privilégio. Pessoas negras sofrem muito mais preconceito do que eu jamais poderia imaginar. Eu espero muito que o dia chegue em que a cor da nossa pele seja completamente irrelevante no tratamento que recebemos em qualquer lugar do mundo, mas infelizmente em 2020 ainda existe muito racismo e xenofobia.

Esse post foi originalmente escrito no meu Medium em 1 de fevereiro de 2020.

Qual Aline? Aquela Aline! A que gosta de escrever 🙂

ola@aquelaline.com

Publicado por aquelaline

Sou a Aline, brasileira, designer, viajante e sempre curiosa. Já morei em 4 países, falo 4 línguas e criei esse blog pra compartilhar um pouco do que aprendo por aí.

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