Em Natal, todo mundo se conhece

Meu namorado é estrangeiro e não entende muito bem quando eu falo pra ele que em Natal, todo mundo se conhece. 

Ele me perguntou quantos habitantes tem essa cidade? Eu contei que quase um milhão. Ele ficou mais confuso ainda, impossível conhecer 1 milhão de pessoas.
Eu tento explicar que o que acontece é que se você não é da galera do forró e curte mais qualquer coisa parecida com rock ou pop, já é taxada como alternativa. E a bolha dos alternativos em Natal não é muito grande.
Ele ficou curioso pra conhecer essa cidade, quando chegamos lá ficou chocado com o tamanho. Acho que sua confusão só aumentou.

Pois bem, vou exemplificar melhor como é que todo mundo se conhece.

Encontramos um amigo dele de uma banda famosinha aqui de Goiânia. Eu conto que morei muitos anos em Natal:
– Ah, que massa, a gente já tocou lá algumas vezes. Conhece o Festival Dosol?
– Com certeza, ia no DoSol desde antes de existir festival, quando ainda era só um galpão.
– Legal! Pois é, eu curto muito umas bandas de lá, tipo a ______insira aqui o nome de uma banda alternativinha de Natal______. Conhece?
– Conheço. (O que não conto pra ele é que também já fiquei com pelo menos uma pessoa da banda.)
– E ultimamente eu tenho feito uns trabalhos com o Fulano de Tal, sabe quem é?
– Sei sim. É meu ex-namorado.

Vale ressaltar que:
1) essa situação – ou alguma muito parecida com essa – já aconteceu várias vezes,
2) já não moro lá há uns 7 anos.
Mesmo assim, nada mudou.

Essa situação já é bem absurda por si só, e deveria bastar pra exemplificar como todo mundo se conhece. Mas vamos além!

O ano era 2012. 
Eu recebi uma bolsa do governo federal pra ir estudar um ano em Barcelona, na Espanha. Lá, dividia apartamento com outras 3 brasileiras que eu não conhecia antes. Duas mineiras, uma paulista.

Um dia, duas das meninas resolveram ir de férias pro Marrocos. Até me chamaram pra ir, e acreditem, eu queria ir. Só que antes de me mudar pra Espanha a única coisa que minha mãe me fez prometer é que eu não iria pro Marrocos, ela tinha medo de me roubarem, me trocarem por camelos etc (acho que nem preciso dizer que ela assistiu O Clone, né?). Mas então. Eu não podia ir pro Marrocos.

Elas foram, adoraram, aí quando voltaram a Raíssa veio me contar:

“Aline, você não vai ACREDITAR no que aconteceu!
A gente tava no hostel lá em Marrakesh, e tinha uma área de lounge. Eu e a Larissa távamos sentadas lá e tinha uma galera por lá também. Vimos um casal de gringos muito diferentão, cheios de tatuagem, o cara com o cabelo loiro e uma barbona. Começamos a falar sobre eles: 
– Nossa Lari, olha que cara gato aquele ali com a namorada.
– Sério, Rá? Nossa, não, ele pode até ser gato mas essa barba tá horrorosa, precisando raspar.
– Cê acha, amiga? Pois eu adoro um homem barbudo.
– É né, tem gosto pra tudo. Mas repara na namorada dele, ela é muito estilosa.
– Achei ela linda, mas tatuada demais. Pra tudo tem limite.
– E esse negócio esquisito que eles tão fumando, que será que é isso?
– Eu vi umas pessoas num café fumando isso mais cedo também, deve ser típico daqui.

Perceba amiga, eles pareciam bem gringos! Então a gente nunca poderia adivinhar quando de repente ele vira pra gente e fala, em português: “Vocês são brasileiras?”
Miga, nossa cara ficou NO CHÃO, mas fazer o que, né? Começamos a conversar com ele.
– Somos sim (como mentir, depois dessa?)
– Ah, nós também. São de onde?
– De Minas.
– BH?
– Sim.
– Ah, que bacana.
– E vocês?
– Somos de Natal.

Imagine, leitora, leitor, que nesse momento foi a minha cara que caiu no chão. Não, Raíssa, vocês acabaram de pagar o mico do século, por favor me diga que você não falou meu nome! “Calma amiga, respira e fica sentadinha aí que eu vou contar o resto.”
– Ah, de Natal? Que legal, tem uma menina que mora com a gente que é de Natal também!
– Sério, quem é?
– A Aline, vocês conhecem?
– Aline? Acho que não conheço nenhuma Aline.
– Aline Thomé, que faz Design na UFRN. (sim, elas não só falaram meu nome como insistiram!)
– Amor, você conhece alguém do Design?
– Não, só a Helga, mas nenhuma Aline não.
– Acho que não conhecemos.
– Ah, mas vocês devem conhecer! Ela vive dizendo que lá todo mundo se conhece, e ela tem umas tatuagens também.
– Hmm talvez. Conta mais sobre ela.
– Então, ela estudava no CEFET antes de fazer Design.
– Ah, eu também estudava no CEFET! Que curso ela fez?
– Alguma coisa sobre meio ambiente…
– Ahhhhh, Controle Ambiental? Nossa, acho que sei qual é, uma que tinha o cabelo colorido?
– Isso, a do cabelo colorido! Nossa, ela já teve o cabelo de cada cor…
– Nossa, então sei sim quem é! Não sabia que ela tava fazendo Design.”

Sim gente, elas me levaram com elas no mico, no Marrocos. E sim, eu sei quem as duas pessoas do casal são, a amiga da Helga e o cara de barba. Na época que a gente ficou, ele não tinha barba ainda.



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Publicado por aquelaline

Sou a Aline, brasileira, designer, viajante e sempre curiosa. Já morei em 4 países, falo 4 línguas e criei esse blog pra compartilhar um pouco do que aprendo por aí.

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